Isto foi o que aprendi sobre coerência visual, referências reais, edição e como contornar as falhas da IA para não deixar o projeto pela metade.
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- O primeiro problema: a garota mudava em cada tomada
- Criar uma ficha de referência
- Converter o prompt em um modelo
- O verdadeiro inimigo: ações muito complexas
- Usar o mundo real como referência
- Quando o texto precisa ser exato, separe o processo
- A edição foi mais importante que a geração
- Quanto trabalho houve realmente?
- Aplicações para pequenos negócios e autores
- Conclusão
O primeiro problema: a garota mudava em cada tomada
Sabíamos que precisávamos de uma mulher de cerca de 35 anos, jovem, moderna e com uma aparência cotidiana. Não queríamos uma modelo com estilo extravagante, mas alguém que pudesse fazer parte de uma história realista.
Para defini-la, usei o ChatGPT como um entrevistador. Em vez de pedir diretamente “crie uma garota”, fomos detalhando o que precisávamos:
- A idade aparente.
- A emoção a ser transmitida.
- Se deveria parecer uma modelo ou uma pessoa comum.
- Que estilo de roupa combinaria com a história.
- As cores e tecidos a serem repetidos.
- Como seria o cabelo.
- O estilo de câmera que queríamos imitar.
- Os elementos que deveriam permanecer idênticos entre as cenas.
Terminamos definindo uma mulher de aparência natural, com cabelo castanho-escuro ondulado na altura dos ombros, suéter de tricô bege, calça jeans azul e sapatos pretos.
A roupa devia ser discreta e crível. A expressão, contida e um tanto melancólica. As cenas deviam parecer gravadas com um iPhone para não destoar das tomadas reais.
A descrição funcionou, mas surgiu um problema.
A garota gerada era sempre parecida, mas nunca exatamente a mesma. Pareciam primas irmãs: compartilhavam traços e roupas, mas pequenas variações no rosto ou cabelo quebravam a continuidade.
Nosso cérebro detecta rapidamente quando dois rostos não pertencem à mesma pessoa.
Criar uma ficha de referência
Para resolver isso, passamos a descrição para o Gemini e geramos uma ficha de referência da protagonista:
- Vista frontal.
- Vista lateral.
- Vista traseira.
- Roupa completa.
- Penteado claramente visível.
- Proporções consistentes.
Algo semelhante às fichas usadas em animação para que diferentes desenhistas saibam como representar o mesmo personagem.

A partir desse momento, usamos tanto a imagem quanto uma versão breve da descrição em cada nova geração.
O rosto e o cabelo passaram a se manter com muito mais precisão. As roupas ainda variavam levemente, mas conservavam bem o estilo, cor e tecido.
Não era uma continuidade perfeita, mas boa o suficiente para o corte funcionar.
Esse foi um dos principais aprendizados: você nem sempre precisa que todos os detalhes sejam idênticos; precisa que os detalhes essenciais reconhecidos pelo espectador permaneçam estáveis.
Converter o prompt em um modelo
Para não começar do zero em cada cena, criei um modelo reutilizável de prompt.
A parte fixa incluía:
- A imagem de referência.
- Uma descrição breve da garota.
- Suas roupas e elementos fixos.
- O estilo visual realista.
- A indicação de parecer gravado com celular.
Depois, modificava apenas três elementos:
- O tipo de plano.
- O cenário.
- A ação.
Por exemplo, a protagonista permanecia a mesma enquanto mudávamos de um plano geral para um close-up, de um quarto para o corredor, ou da ação de fazer a mala para a de fechar a porta.

Esse sistema reduziu o trabalho repetitivo e evitou alterações acidentais em detalhes importantes.
O verdadeiro inimigo: ações muito complexas
Manter o aspecto da garota foi apenas parte do problema. O mais difícil foi fazer com que ela interagisse de forma natural com os objetos e o espaço.
A cena mais complicada foi a saída de casa: abrir a porta, sair com a mala, deixar um post-it, virar-se e caminhar. Para a IA, isso exigia coordenar muitos elementos simultâneos.
Os resultados tinham partes aproveitáveis e outras absurdas (malas flutuantes, giros bruscos).

Em vez de buscar um vídeo de 8 segundos perfeito, comecei a selecionar os segundos específicos que funcionavam em cada tentativa.
A edição permitia cortar antes do erro e passar para outra tomada, o que inclusive combinava com o ritmo dinâmico do videoclipe.
Usar o mundo real como referência
A cena do corredor exigia um espaço que conectasse com as tomadas reais. A solução foi fotografar o corredor real do prédio e enviar essas fotos como referência visual para a IA.
O resultado encaixou muito melhor desde a primeira tentativa.

Uma foto pode comunicar em segundos o que levaria parágrafos de texto para explicar.
Quando o texto precisa ser exato, separe o processo
Para o título da música e nomes das bandas em um grafite na rua, a geração de texto da IA se mostrou imprevisível.
Dividimos o processo:
- Geramos a cena da rua sem texto.
- Adicionamos o texto exato com o Photopea.
- Animamos a imagem final com o Google Flow.
Separar as etapas garantiu precisão sem perder a estética desejada.
A edição foi mais importante que a geração
Gravei com GoPro, iPhone e Xiaomi, além dos vídeos de IA. Para harmonizar as cores e contraste, usei o Gemini para analisar as tomadas e fornecer guias de ajuste para o DaVinci Resolve.
Dediquei cerca de 20 horas à edição e integração visual. A IA não editou por mim, mas reduziu o tempo gasto procurando funções ou tutoriais.
Quanto trabalho houve realmente?
Estimamos cerca de 45 horas no total:
- 20h de edição e colorimetria.
- 12h de gravação real.
- 8h entre geração de vídeos, prompts e testes.
- 5h de storyboard e planejamento.
A IA nos permitiu viabilizar o projeto sem modelo ou diárias extras de gravação, mudando a natureza do trabalho para curadoria e edição.
Aplicações para pequenos negócios e autores
Uma pequena cafeteria pode gravar o espaço e preparo real dos produtos com celular e gerar tomadas complementares com IA (clientes entrando, transições criativas).
Uma escritora pode criar fichas de personagens e cenários para produzir teasers visuais do seu livro sem necessidade de equipe de filmagem.
Conclusão
A IA não fez o videoclipe por nós, mas eliminou bloqueios que poderiam ter deixado a ideia na gaveta.
Finalizar um projeto é aceitar as limitações e usar as ferramentas disponíveis com inteligência e criatividade.
Ao final deste post, você pode conferir o resultado no videoclipe de “Todas aquelas luces”, de Los Chicos del Sótano em colaboração com Paraleia:
